SIMPLESMENTE SOSSEGO
Acordo
em sobressaltos, com o coração disparado. Começava mais um sábado ensolarado,
marcado pelo calor escaldante de Cuiabá. Minha rotina seria a mesma de todos os
fins de semana. Aliás, rotina era uma palavra que realmente combinava com minha
vida. Há uns dois anos, todo sábado de manhã eu passeava com o cachorro do meu
vizinho, o senhor Hermógenes, desde que ele teve um problema de saúde e não
pôde mais fazer isso. Passeava com ele em um parque próximo à minha casa.
Nessas ocasiões, deixava-o correr bastante e
gastar suas energias, enquanto eu aproveitava para respirar um pouco de ar puro
e apreciar a paisagem. Depois de um tempo, esperava um pouco para que fizesse
suas necessidades e, então, voltávamos para casa. Volta e meia, eu encontrava
alguém conhecido pelo caminho ou na porta do prédio; então, trocávamos algumas
palavras triviais e eu voltava para casa para continuar meu dia.
Não
posso dizer que o passeio com o cachorro era algo que eu amava fazer, mas
também não odiava. Ganhava alguns trocados pela atividade. Não era muito, mas
garantia meu estoque de batons para o mês inteiro, já que eu era fascinada por
eles. Porém, naquele dia, acordei muito estranha, diferente do normal. Levantei
rapidamente da cama e me olhei no espelho. Aí foi que tudo piorou de vez.
Senti-me tão confusa e perdida, que nem consigo explicar. Um sentimento
desconhecido, intenso e voraz tomou conta de mim como nunca antes em toda a minha
vida.
Queria
gritar com todas as forças da minha garganta, e ao mesmo tempo afundar o rosto
no travesseiro para que ninguém ouvisse os gritos que insistiam em ecoar da
minha alma. Olhei um pouco abaixo do espelho, e tive um impulso de varrer ao
chão todos aqueles batons que estavam ali.
Ainda
tomada por sensações que eu não sabia o que eram, aos poucos fui respirando
lentamente e tentando entender o significado de tudo aquilo. Então, fui
percebendo que não queria mais aquela vida. Aquela rotina de estudos para um
concurso público que, na verdade, eu não sabia se queria prestar. O passeio de
sempre com o cachorro, para encontrar as pessoas de sempre, e ser a mesma
menininha boazinha, simpática e educada com todos, que demonstrava interesse
por todas as conversas, quando na verdade já sabia quais seriam os assuntos,
pois eram sempre os mesmos.
Pude
constatar, ainda meio inebriada por aquele mar de sensações desconhecidas, que
eu não queria mais nada daquilo. Não queria mais amigas que praticamente me
obrigavam a estar “na pista”, sempre à procura de alguém, ou pelo menos com
algum crush em mente, pois, para a
sociedade, a ideia de que eu poderia estar feliz com minha própria companhia
era simplesmente inconcebível.
Percebi,
naquele exato instante, que estava me lixando para as convenções sociais de que
a mulher tem que ser simpática, prestativa e estar sempre impecavelmente linda
e bem vestida. Aliás, estava farta de qualquer convenção. Decidi que estar bem
vestida seria usar a roupa que eu, de fato, quisesse usar, com ou sem batom nos
lábios. Isso não me tornaria menos mulher, e ponto final.
Não
quero ter planos. Nem pequenos, nem grandes; nem ousados, nem simples.
Simplesmente não quero ter planos. Quero a liberdade de ser a Angélica que sou
e de fazer o que quiser para, então, tentar descobrir se tenho algum plano para
minha vida ou não. Quero uma paz tão intensa e profunda, que escorra livremente
pela minha garganta, tal como as lágrimas que escorrem pela face de alguém que
experimenta um choro libertador.
Depois
dessa experiência intensa, olhei no relógio e percebi que ainda podia dormir
mais um pouco. Não sabia o que faria quando acordasse. Não sabia se de fato
teria forças para romper com tudo que gostaria, mas uma coisa é certa: Quero,
simplesmente, sossego.
Fábio Nani.
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