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NAQUELA TARDE DE DOMINGO


NAQUELA TARDE DE DOMINGO


As tardes de domingo eram quase sempre tanto quanto tranquilas e entediantes para Cínthia. Ela passava a maior parte do tempo dos domingos envolvida em muitos livros, sites e vídeos sobre comportamento animal, saúde e preservação de animais selvagens, além de outros assuntos relacionados.
Não eram raras as vezes em que a família estranhava esta paixão da garota por animais exóticos e selvagens. Os pais sempre diziam: “Esta menina é viciada em bicho! Ainda se pelo menos fossem animais de pequeno porte, como gato ou cachorro!”. Na verdade, Cínthia tinha sim vontade de ter um cachorro, mas sabia que não teria o menor tempo de cuidar do bichinho, e seus pais, muito menos, então nem ousava cogitar esta possibilidade.
Bem... mas vamos a tão peculiar tarde de domingo que nos interessa. Era por volta das três da tarde. Todos já haviam almoçado, e os pais de Cínthia tiravam um cochilo no sofá da sala. A garota então vai para o seu quarto, como de costume, pois era lá que passava a maior parte do tempo quando estava em casa. Devido à sua personalidade observadora e de poucas palavras, via no próprio quarto uma espécie de porto seguro, um universo particular que não precisava explicar nem dividir com ninguém. E isso a agradava bastante.
No entanto, naquela tarde, ela resolve, repentinamente, olhar pela janela do quarto, algo que não fazia quase nunca. Então, começa a contemplar o pequeno quintal de terra dos fundos de sua casa, e tem um impulso inexplicável de ir até lá. Por quê? Ela nunca fazia aquilo! Para falar a verdade, tinha até certa repulsa do cheiro e do contato da terra com seus pés. Mas, por incrível que pareça, naquele dia tudo estava diferente.
Cínthia desce rapidamente as escadas da cozinha que dão acesso ao quintal, ávida por contemplar aquele mundo que sempre esteve a poucos passos de distância, mas que, ao mesmo tempo, era tão desconhecido para ela. Nem na infância teve tanta vontade sentir os pés tocarem a terra e perceber os encantos daquele lugar, como tinha naquele momento.
Sem pensar em mais nada, a garota corre em direção a uma enorme jabuticabeira cultivada há muitos anos por seu pai. Ela passa delicadamente os dedos pelo tronco da árvore robusta, como se pudesse sentir a fundo cada uma daquelas marcas. Depois, se deita de forma despojada àquela sombra, como se repousasse sob o melhor dos colchões.
Esta experiência trouxe a ela uma chuva de pensamentos antigos e novos que se cruzavam sem parar, num vai e vem constante. A rotina de Cínthia era intensa. Depois da escola, ela trabalhava o dia todo, e às vezes até a noite, no escritório de contabilidade de seu tio. Trabalho era o que não faltava, pois era o único escritório que prestava este serviço na pequena cidade onde eles moravam. A garota olhava para os dedos marcados pela tinta dos muitos carimbos usados no escritório, pensava no trabalho que fazia, nos estudos, no futuro. O sonho de ser veterinária crescia em sua mente. Ela respirava de forma bem lenta e profunda. Aos poucos, foi experimentando uma paz que não conhecia. Descobriu que poderia desfrutar de uma tranquilidade sem culpa, que afastava toda e qualquer angústia ou incerteza.
Ali, à sombra daquela jabuticabeira, aos poucos, Cínthia foi percebendo que, talvez,   sua paixão por animais selvagens se devesse ao fato de que eles são arredios, ariscos e podem ser perigosos quando ameaçados, mas, ainda assim, são bem mais previsíveis que muitos seres humanos; alguns, capazes até de vender seus corpos por poucos trocados, mentir descaradamente para livrar a própria pele ou maltratar os próprios filhos, para citar alguns exemplos. Em meio a todos esses pensamentos, ela se dá conta de que talvez seja só mais uma adolescente insegura, nada demais.
Ninguém sabe o que se passa, de verdade, no coração e na cabeça de Cínthia, nem ela mesma. Se o desejo de ser veterinária é de fato verdadeiro ou apenas uma tentativa desesperada de buscar nos animais aquilo que não consegue encontrar nas pessoas, só saberemos no futuro. No entanto, uma coisa é certa: Seria maravilhoso que todos nós descobríssemos uma jabuticabeira assim nos quintais de nossa vida, para refrigerar nossa mente dos pensamentos ininterruptos sobre a vida. Se não puder ser sempre, que seja ao menos de vez em quando. E você, já descobriu a sua?

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