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A FOLHA DESPRETENSIOSA


A vida de uma folha de árvore não costuma ser valorizada e/ou observada. Quando muito, observam-se as árvores como um todo, e olhe lá.

A folha tem uma vida genuinamente simples, sem grandes objetivos além de simplesmente cumprir seu papel na natureza. Não precisa suprir expectativas nem resolver qualquer problema além de viver seu ciclo natural. Pensar nos espinhos que terá de retirar da própria carne e seguir em frente como se nada tivesse acontecido, é algo inconcebível. O Homem é refém das próprias escolhas, e principalmente do modo como lida com elas. A folha, não.

Não é grandioso estar sujeita ao tempo, correr o risco de ser esmagada a qualquer hora por algum humano ou animal, ou mesmo cair ressequida ao chão durante o processo natural de renovação do outono.

Por outro lado, a folha é livre. Sua queda é natural, leve, verdadeira. Ela não tem de dar explicações ou satisfações a ninguém. Experimenta uma liberdade tão ampla, que é capaz até mesmo de constranger algum ser humano que pense com um pouco mais de profundidade sobre a vida.

A folha não tem uma vida maior ou menor, melhor ou pior, ela simplesmente cumpre seu ciclo natural, e ponto. Não tem de lidar com comparações, porque faz o que nasceu para fazer.

A poeira, tão detestada pelos humanos, pode proporcionar a ela uma aventura incrível, transportando-a generosamente de um ponto a outro, sem destino certo. Não tem de cumprir horários na realização de atividades que sua alma já percebeu que não lhe pertencem, como nós realizamos, muitas vezes.

A folha pode ser ela mesma com toda a sua profundidade, pois já entendeu que se houver alguma diferença entre ela e as outras folhas, isso não fará diferença, já que, assim como ela, as outras também estão neste mundo simplesmente para cumprir seu ciclo natural, sem grandes pretensões. 

Pode parecer loucura, mas o desejo de ser, ao menos por um instante, semelhante a uma folha, pode surgir em um dia qualquer, em que os contornos da própria vida pareçam insuportáveis. Para a folha, não há tempo cronológico. Que catarse maravilhosa! Que carinho na alma! Nem uma roupa lavada com o mais nobre dos amaciantes poderá proporcionar tamanho conforto.

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